sábado, 3 de outubro de 2009

Quinze dias

DIA 1

Acordei e não conseguia movimentar um músculo do corpo, apenas as pálpebras. Havia uma enfermeira que pedia para falar alguma coisa, e da minha boca nada conseguia sair, eu estava paralisado cada movimento seria como erguer uma tonelada. Haviam outras pessoas de pé no quarto olhando pra mim, eram também internos da clínica preocupados com meu estado.

Só consegui mover-me ou balbuciar algo quinze minutos depois de acordar. Fui levado às pressas a uma sala com dois homens presos às camas por tiras de couro nos pulsos e pernas. Eu não fui amarrado e se fosse não teria me importado pois a única coisa que queria era dormir mais um pouco ou talvez para sempre. Adormeci observando o gotejo do soro.

Já era noite quando acordei novamente e notei que já não havia mais soro, nem agulha no meu braço. Pude levantar sem dificuldades, havia somente um homem amarrado que me olhava fixamente com a boca escorrendo saliva. Saindo da sala encontrei o corredor onde havia uma fila de gente vestida como mendigos em frente à enfermaria.

Logo após ter tomado um punhado de comprimidos, a enfermeira com cara de pedra disse que minha psiquiatra estava para chegar.

Haviam umas vinte pessoas no corredor. Veio até mim um homem alto, loiro e de olhos claros. Falava o homem do campo dono de um sotaque vêneto carregado.

- Ô piá,- Dirigiu-se a mim - Tu tava mal heim?
- Ainda tô com sono - Disse para ele.
- Que que te deu? Depressón?
- Algo parecido. - Tive certo receio de dizer a verdade.
- É a segunda veiz que a depressón me pega Tentei me enforcá num pé de laranjera. Agora vô vê se consigo me encostá.
- É foda.
Em minha direção veio outro rapaz, bastante eufórico, tinha um sorriso metálico de aparelho nos dentes.
- E aí Miguel, lembra de mim na ambulância?
- Vagamente. Como sabe meu nome?
- Viemos juntos na ambulância. Teu amigo tinha que te segurar, que tu queria sair da ambulância andando... Tu não falava nada com nada Tava mais perdido que cego em tiroteio.
- Bah, não lembro de quase nada.
- Mas tu vai melhorar. - Mostrou-me um evangelio - Acredita nesse cara aqui Só ele salva Só ele
- Pode crer.

As grades de ferro no fim do corredor se abriram e vinha uma mulher elegante de seus quarenta e cinco anos, segurando algumas pastas embaixo do braço. Ela entrou na enfermaria sentou-se por cinco minutos, observou as pastas e chamou meu nome.

Sentado em frente a psiquiatra, mesmo com sono e meio grogue, conseguia ficar constrangido. Ela parecia muito arrogante e sem muita paciência. Apenas pelo olhar que me lançava.
- Então tu quisestes se matar?
- Não foi bem assim.
- Quem toma meia cartela de codeína, mais cinco comprimidos de lexotan quer o que?
- Queria me desligar... Só isso.
- Desligar? Você com essa idade deve ter muitos problemas - Disse-me em tom de deboche.
- Alguns...
- Quer dizer que já trabalhaste aqui nessa clínica como Enfermeiro, é o que me disseram...
- A quatro anos atrás.
- Que idade tu tens agora?
- Vinte e oito.
- E quis morrer?
- Já disse que não doutora, não foi essa minha intenção.
- Onde conseguiu essas medicações?
- Comprei de um traficante. - Eu estava mentindo.
- Ah tá... Sabe que és um dependente químico então?
- Sim.
- Vou te explicar como funciona a política da clínica para dependentes químicos: Fica no máximo quinze dias, pois a clínica aos poucos está deixando de atender esse tipo de paciente e sem pátio... Ou seja, ficará aqui na Unidade de Observação, trancadinho e refletindo as atitudes que teve contra si mesmo. É tudo. Entendeste?
- Sim senhora.
- Mantenho Tegretol, Fluoxetina, Haldol e Fenergan. Como se necessário, Diazepam injetável. Mas antes tenho que te dizer que não terá Diazepam a todo momento que bem entender, pois as enfermeiras estão cientes do teu vício aos benzodiazepínicos. Amanhã de manhã coletará sangue para exames de rotina.
Saí da saleta e uma enfermeira morena e bem educada me conduziu até o banheiro. Haviam dois boxes com um chuveiro em cada.
- Vai ter que trocar toda tua roupa. Aqui só se usa as roupas da clínica. Tuas roupas serão guardadas lá embaixo e vai poder pegar de volta quando sair.
Fiquei parado. Olhando ela preparar os materiais de higiene.
- Tira a roupa Vamos lá. Não tenha vergonha porque já vi muito homem pelado na minha vida.- Ela riu.
Então eu estava lá nu, me ensaboando com uma mulher olhando cada movimento meu. Em seguida entrei em uma pequena sala repleta de roupas velhas e rasgadas. Achei um Blazer velho e calças tão curtas que minhas canelas ficavam expostas. Eu estava tão magro qeu as calças caíam. Tive que amarrar um barbante em torno da cintura para segurá-las.

Devidamente vestido me vi no espelho quebrado e deixei escapar em voz alta:
-Sou o rei dos mendigos - A enfermeira riu.
Fui levado ao quarto, haviam seis camas duas ocupadas. Escolhi a mais próxima da janela, onde dava para ver o pátio. Uma cancha de bocha, mesa de sinuca, e poco movimento de gente a noite. Que eu me lembre, durante o dia o pátio era um formigueiro de homens à deriva na vida.

TO BE CONTINUED....

terça-feira, 4 de agosto de 2009

In memorian

Ao muito querido José Antônio Sperafico

O senhor me ensinou a ter paciência. Não precisou nem ao menos me dar conselhos. O senhor ficava naquela cadeira de rodas apenas esperando, esperando e esperando e só de olhar podia-se compreender que tudo o que restava a ti era paciência e nada mais.

Sempre lúcido, não caducou como os outros a sua volta. Não deixou que o tempo lhe intimidasse, muito menos não tinha medo do fim. Um exemplo de coragem e luta que acrescentou um belo exemplo pra mim e todos que tu já conviveste.

Uma luta silenciosa, passiva e tu venceste sem entregar-se. Gostaria de ter lhe conhecido quando jovem. Nem que se fosse um amigo de biritas. Não sei de sua história, mas tenho certeza de que foi um grande homem. Um grande homem mesmo que não tenha tido um grande feito. Apenas por existir. Agradeço-lhe amigo e lamento não poder ter passado contigo teus últimos dias.

Hoje estou de luto.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Chão de pedra

Quando temos tudo, ou nem que seja o mais básico na vida, é mais fácil tolerar as dores de perda. Casais que rompem, morte, emprego etc. Não sou eu único e exclusivamente a dizer que nunca estamos a só quando perdemos algo.

Já ouvi e vivenciei muitas histórias na vida sobre pessoas que se iludem com um novo amor, um novo projeto de vida, um novo lugar pra ser feliz - a nossa velha mania de achar a felicidade constante - e caem de um abismo alto, que dependendo da sorte ou resilência os danos podem ser irreparáveis.

Tive muita sorte nas vezes em que perdi algo ou me iludi. Tive a sorte de ter bons amigos para contar, ter lugares para me esconder (ou simplesmente respirar novos ares), um emprego que me provia dinheiro para algumas festinhas e mulheres. Vivencio algo inédito: Os amigos continuam sendo bons mas o que eles dizem não cabe mais pra mim, os lugares que vou ainda existem mas meus problemas vão junto onde eu estiver, o emprego eu perdi, o dinheiro se foi e não há mais farra, nem mulheres, nem bebidas e não estar lúcido agora é suicídio.

Me sinto nu no meio de uma multidão. Sinto-me às vezes como se tivesse cometido um crime. Há uma vontade de suicídio inconsciente do tipo: “ Que belo dia, bem que eu podia ser atropelado esta tarde.” Há uma sensação de que não se pertence ao mundo e que nada está conectado com você.

Lembro dos mecanismos de defesa da psicologia, mas já gastei todos os possíveis. Lembro da fúria que me atacava quando tudo estava uma titica de galinha, onde eu expurgava tudo de ruim com uma energia que eu não sabia de onde tirava. Lembro da minha educação, da minha inteligência e o equilíbrio que eu tinha para não permitir que pessoas erradas entrassem e saíssem da minha vida a hora que bem entendessem levando um pedaço meu junto.

Não tenho mais rosto pra cuspir, não tenho mais o mínimo direito de culpar o pai, a mãe, o vigário e o mundo dessa vez. Resta então apenas eu.

Esse “eu”, não é aquele idealizado quando dizemos orgulhosamente que se precisa estar consigo mesmo às vezes. É um “eu” que envergonha, ferido a faca, que me dá vontade de chorar pela vulnerabilidade que foi exposto.

É difícil encarar as pessoas nos olhos, pois não me acho digno. É torturante sair com os amigos, conhecer gente nova por que não se tem assuntos. Ao travar contato com alguém novo, nunca descobrirá os valores bons que você tem, geralmente fazemos propaganda de nós mesmos, e com esse “eu” maldito você acaba se sabotando.

Egoísta dizer que sou o único a sofrer uma crise dessa origem. Escrever um texto assim não é muito mais a minha praia. Mas já vi muito jornalista enchendo coluna de jornal com seus problemas. Tenho aqui nesse espaço um longo rascunho espiritual de anos. Ninguém é igual a ninguém, mas posso dizer com satisfação que alguém que passou os seus olhos por aqui já sentiu o que eu já senti.

Os meus dias de sorte podem ter me atrapalhado severamente na tentativa de me orgulhar de quem sou.

Há sempre o risco da loucura, o risco de morte interior da amargura definitiva. Estou assustado e ao mesmo tempo alerta. “Não se entregue”.É o que repito a mim e para o leitor também. Viver é morrer a cada minuto e até lá há muito o que sofrer, muito mais do que curtir.

domingo, 14 de junho de 2009

Faruque

Eu era pequeno, talvez tivesse meus seis ou sete anos. Lembro que o apartamento que morávamos recebia pouca visita do sol. Minha mãe arrumava-se para sair. Olhei para ela arrumada e senti raiva. Lhe dei murros, lembro que acertava-os na altura da cintura, ela tentava me segurar e dizer que eu tinha que aprender a ficar sozinho. Batia cada vez mais e mais como se ficar só naquele apartamento fosse o mais severo dos castigos. Gostaria de dizer pra ela: “Eu estou aqui Não me deixe Não aguento mais ficar longe de ti sua desgraçada ” Mas ela partia.

Na mesma noite, quando minha mãe chegou, ocultava algo sob a jaqueta jeans. Chegou sorrindo pra mim e mostrou um filhote de vira-latas de pelos negros, todo encolhido de frio. Disse que seria meu amigo e que ia me proteger. Além disso havia contratado uma babá.

Minha mãe continuava saindo para ir trabalhar. Às vezes nem voltava no mesmo dia. A babá dormia o tempo todo, enquanto eu conversava e brincava com o Cão.

Eu costumava construir pequenas cidades com tijolinhos pequenos de madeira para que o Faruque viesse e destruísse tudo como um monstro gigante atacando uma grande metrópole ferozmente.

Um dia, voltando da escola, meu cachorro não estava lá. Perguntei para minha mãe onde ele estaria. Ela me disse que o Faruque estava de férias na casa de uma tia minha no bairro Cruzeiro. Voltei a bater nela, ela dessa vez me bateu também. “Não dá pra ter cachorro aqui A velha Maria do 403 ouviu ele latindo ” Nunca havia sentido tanto ódio de minha mãe antes. Ela saiu com pressa novamente. Esperei a babá dormir depois da novela, abri a porta e urinei no tapete do apartamento 403.


sábado, 13 de junho de 2009

O passado(1)

Minha mãe andava as voltas preparando o almoço na casa da praia. Minhas irmãs eram pequenas e eram tão lindas como a tarde de sol que exibia-se diante de nós. Lembro pouco de mim, o que me preocupava, o que me deixava feliz, o que me aborrecia e o que eu queria ser, como se em alguma parte da minha vida tudo fosse deletado de minha memória. Atrapalhando na minha tentativa de hoje, recontruir-me de uma maneira sólida.

Hoje: Onde perdi mais do que ganhei. Não preciso dizer data, só posso dizer que é depois de muito tempo daqueles dias de sol. Preciso dizer que é uma época em que deixo que as coisas boas que eu tenho me abandonem. Tempo onde já não sou mais gênio, nem tenho mais o que oferecer a não ser o pouco que sobrou de mim.

Senti um cheiro de protetor solar. Sou transportado para aquele dia de novo. Andando na beira do mar, assoviando uma canção qualquer de verão, pés descalços, a brisa, o conversar do oceano e a rara e escassa paz.

Foi a última lembrança da minha família e a última vez que senti a paz mais genuína.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Se a mãe soubesse que soy louco...

Se eu dissesse a minha mãe ontem no telefone que estava bem, estaria mentindo. Menti a vida toda para ela sobre isso. É uma maleficiência de espírito tão inexprimível, que rendeu inúmeras tentativas minhas de textos e contos (vide mãos da tristeza, postado nesse blog). Não que minha obra seja vasta, afinal eu com a idade que tenho, sou um bebê nas letras.

Essa falha ao tentar expressar essas coisas negras do espírito na tela branca, causa-me uma inquietude que de uma maneira ou outra, me move. É um alto preço. Custou-me: empregos, um ou dois amigos, todas as namoradas, cigarros, abuso de álcool, de drogas e quilos à menos.

Toda vez que tento escrever sobre essa tristeza, sinto-me útil na contribuição de algum legado para a sociedade, e para mim isso é um objetivo satisfatório. Logo penso, que se tudo der errado, quando minha vida não tiver mais sentido, quando as pessoas virarem as costas, quando novo ou quando velho, terei um sorriso tímido no fundo da alma. Sei que um dia haverá alguém, que no meio da madrugada sofrendo com os demônios da insônia, com a guerra particular da ansiedade, que passará os olhos em minhas linhas e pensará: Não estou sozinho. Essa mesma pessoa poderia não perceber que a maioria das sociedade em que você deve ser tudo e ter tudo em tempo recorde, está submersa em pressa. O que eu escrevo aqui não é novidade, mas há inúmeros que ilustram a felicidade, raiva, tristeza, amor de formas diferentes.

Queria ter explicado isso a minha mãe, mas achei perda de tempo. Queria poder dizer tudo o que me faz temer, tudo que me faz morrer. Mas sou um homem feito que deve ser capaz de confrontar de frente seus fantasmas, até mesmo porque sei muito bem que quando se está na pior temos a impressão que as pessoas irão lhe tratar com diferença, e na verdade vão indo embora. Justifico aqui então pq abordo tanto o tema da tristeza, solidão, insatisfação e incômodo. Alguns julgam que isso é moda, uma nova forma de rebeldia adolescente, torcem o nariz... Acho que tudo isso nada mais é do que um reflexo dos males da sociedade atual, irá repercutir em uma nova forma de rebeldia, tanto na música, cinema ou literatura. Não é à toa que anti-depressivos e rivotril, ocupam os topos das listas de remédios mais consumidos no país.

domingo, 5 de abril de 2009

Aos grandes nomes

Assumo. Mas aos grandes, falem com minha mão.